segunda-feira, 28 de junho de 2010

A CASA


A CASA

Autor: Alisson Alves

Gênero: Drama/ terror

Andando pelas ruas desertas, eu lembrava daquele dia estranho que mudou minha vida completamente. Hoje sou apenas um homem comum na sociedade, tenho 31 anos e sofro de claustrofobia desde o dia que será contado a vocês agora e, eu quase esqueço de me apresentar, meu nome é Daniel e sou um dono de uma pequena mercearia no bairro da lapa no Rio de Janeiro.
- Daniel, venha logo, vai dizer que está com medo!?
Lembrando dessas palavras é que começo o meu relato. Quem o disse foi meu colega de classe, Thiago. Na época éramos apenas moleques de 13 anos de idade querendo aventuras.
Estávamos na sala de aula, em mais um dia monótono, quando Thiago e Pedro – ambos inseparáveis  – chegam com um pequeno livro de capa preta na mão.

- Daniel, meu coleguinha, você sabe que livro é esse que estamos segurando? – disse Thiago num tom malicioso. Naquela época, estávamos descobrindo sobre muitas coisas e tudo era novidade, qualquer tipo de coisa era motivo para pensarmos malícias.

- Não vai dizer que é um livrinho de estórinhas de sexo!? – eu respondi animadamente, uma vez que eu sempre fui o mais pervertido da minha turma escolar

- Não, seu tarado! 

Thiago aproveitou para me dar um sopapo de leve na cabeça.

-então o que é, uai?

- é um.... – pedro interrompeu

- quer mesmo saber? acho que não é uma coisa para maricas como você saber...talvez você tenha medo e... – ele dizia isso com um sorrisinho arrogante no rosto, coisa que me irrita até hoje nas pessoas.

- eu não tenho medo, idiota! – disse eu querendo me defender da estúpida fama que eu ganhei quando numa festa fugi de um palhaço. Eu sempre tive medo deles.

- sei, sei, medrosão... quer mesmo saber? – Eu sabia que eles queriam provocar minha curiosidade apenas, então fiz de tudo pra que eles me contassem, durante a aula inteira ficamos trocando bilhetinhos de ofensas infantis enquanto a professora de matemática dava uma aula horrível de frações.

Em um dos bilhetes – o último de mais de vinte – Thiago escreveu: eu sei que você vai ter medo, mas se você quiser provar que é machão, vá até a casa abandonada da avenida dos Ourives depois da aula. Obs: vai sozinho, medroso.
Aquilo me deixou excitado pra saber o que era, mas o que poderia ser tão amedrontador assim para tanto mistério?

Depois da aula, eu fui até a rua dos Ourives onde havia uma casa antiga do século XIX que havia servido de hospício e de necrotério há uns 40 anos atrás, até ter sido lacrada pelo governo por causa dos altos custos e também porque diziam que os loucos eram assassinados e serviam de cobáias de novos experimentos e autópcias. Depois de lacrado, o prédio nunca mais serviu para nada, ninguém se atrevia a entrar pelas coisas que diziam acontecer ali perto, além de relatos de moradores de rua sobre a casa, local onde nunca mais voltavam. 

Eu sabia que era apenas mito que nossos pais e vizinhos inventavam para não cairmos na tentação de invadir um prédio público, mas ao mesmo tempo, isso me dava muito medo porque a casa, realmente tinha um ar sombrio. 

Quando eu cheguei na frente da casa, eram por volta das 6 da tarde e meu horário de voltar era até ás 7, mas minha curiosidade era tão grande, que nem o medo do cinto de couro do meu pai me fez voltar. Fiquei esperando por uns cinco minutos enquanto eu encarava o prédio na esperança de que o medo fosse embora, o que ocorreu de modo contrário, eu fiquei muito mais apavorado, porém, tinha que mostrar que eu não tinha medo de nada. A essa altura, eu já sabia que não tinha nada a ver com sexo – infelizmente.

- Hum, eu achei que você não vinha, já tá com medo? – Pedro disse isso rindo da minha cara

- não, nada de medo. E aí, o que é esse livro tão estranho?

Thiago segurava o livrinho e mandou que nos sentássemos na mureta que cercava o casarão.

- Isso aqui é um livro quimbandista que eu consegui com um amigo meu. Ele disse que quando abrimos o livro, todos os espíritos que estão perto, aparecem para falar conosco. Só que tem que ser num local onde saibamos que há bastantes espíritos e esse local aqui atrás é perfeito. Nós temos que abrir o livro bem no meio onde tem um pentagrama desenhado e aí a gente recita essas palavrinhas que tem embaixo da figura.

- mas, minha mãe disse que fantasmas não existem – eu falei isso pra tentar convencê-lo de que aquilo seria uma idiotice completa.

- então, melhor ainda, assim sabemos que não acontecerá nada. Vamos lá? – Thiago também estava com um pouco de medo, mas muito pouco perto do que eu estava sentindo.

- Vamos logo, pessoal – pedro foi na frente pulando o portão de ferro na frente da casa. Esse horário, ninguém se atrevia a passar por aquela rua, só estavam ali nós três, juntamente com nossos medos.

Os dois foram na frente, eu fiquei olhando para o portão e algo dizia para eu não entrar ali, era uma presença ameaçadora e invisível que queria me repelir daquele local, mas Thiago então cita as malditas palavras: 

- Daniel, venha logo, vai dizer que está com medo!?

- Medo? NUNCA! – eu fiz cara de quem estava totalmente à vontade e pulei o portão, embora eu quizesse estar fora dali o mais rápido possível e ir jantar no aconchego do meu lar.

Mesmo sabendo que a porta estaria trancada, tentamos força-la assim mesmo. Não conseguimos, até que vimos uma brecha grande em uma das janelas do lado, usada pelos moradores de rua que ali estiveram faz tempo. Entramos com facilidade, a essa altura, já estava tudo escuro lá dentro, mas Thiago tinha consigo uma pequena lanterna que ele tinha levado para se previnir. Saimos em uma sala cheia de lixo jogado há muito lá e o cheiro estava horrível, parecia que havia algum bicho morto ou coisa assim. Ouvimos um barunho que lá dentro foi alto, nos assustamos, mas eram só pombos que tinham tomado conta dali.

- E aí, vai ser aqui mesmo que vamos fazer isso? Rápido, minha mãe tá me esperando e eu não quero apanhar!

- Não, não pode ser aqui – disse pedro – eu fiquei sabendo que aqui dentro tem um pequeno porão onde eles matavam as pessoas loucas e é lá que vamos invocar os fantasmas.

- mas, você sabe onde fica, pedro? – Thiago disse desconfiado e já meio amedrontado.
- bom, deve ser por aqui, acho que deve ter um corredor atrás dessa porta. Dá a lanterna, Thiago.

- toma.

Pedro parecia conhecer o local e foi de encontro a porta, que não estava trancada e, como ele disse, deu em outro corredor longo, que parecia não ter fim devido à escuridão. Nós três fomos seguindo até o final do corredor quando chegamos a uma porta que ficava onde deveria estar uma parede. 

- Parece que deve ser aqui...vamos entrar? Tcha, tchan, tcham, tcham...hahahahahahaha!

- Para, Pedro! – eu estava irritado, com medo e com fome, só queria ir embora dali e ele ainda estava tentando nos deixar ainda mais nervosos...eu devia ter saído de lá, se eu tivesse feito aquilo, hoje eu não seria tão infeliz.

- tá bom, mariquinha....vamos abrir a porta....

Ele fez isso bem devagar, a porta rangeu e não vimos nada além da escuridão que havia atrás dela, mas com a lanterna pudemos ver que tinha uma escada que levava até o sub-solo, exatamente com Pedro havia descrito: um porão.

Descemos a escada cuidadosamente para não cairmos e resolvemos deixar a porta aberta para facilitar se a gente precisasse correr. Mas, um barulho assustou a todos: BAM!

Algo parecia ter caído no tenhado, mas não havia nada, apenas um barulho muito forte e com eco além do que deveria estar. Todos trememos de medo e olhamos para os lados. Um frio me subiu a espinha e derrepente, eu comecei a sentir que algo me tocava as costas e a nuca.

-Para, Pedro! Eu não estou brincando, vou te meter um sopapo na cara, idiota!
- do que você está falando? – eu vi que ele estava a uma distância muito longa para fazer aquilo e percebi que Thiago nem conseguia se mexer mais de tanto medo, o barulho o deixou muito assustado...

- Va...vamos sair daqui logo, gente? – Thiago disse gagejando e se dirigindo à porta, mas, o inesperado ocorreu: a porta fechou num baque só fazendo mais um estrondoso barulho. Ele começou a chorar querendo ir embora, mas Pedro insistia que devíamos ainda fazer o que tinhamos ido fazer.

- Gente, para de frescura, foi só o vento que...quem me tocou? Para! Para!
Pedro de repente começou a gritar como se alto tivesse tocando seu corpo e a lanterna se apagou, provavelmente porque a pilha havia acabado, mas comigo, além daquele primeiro toque, não estava acontecendo nada... O que poderia nos livrar daquilo? Eu então pensei em correr para pedir ajuda e tentei abrir a porta com toda a força que eu tinha, enquanto meus amigos gritavam para algo parar de bater neles. Eu consegui finalmente abrir a porta e corri tentando encontrar a saída, mas haviam muitas portas e agora o corredor parecia muito mais longo....

Acha que vai conseguir, patife? – uma voz começou a dizer isso ferozmente e eu ficava cada vez mais amedrontado e um pouco feliz por não estarem me maltratando como aos meus colegas.

Não vai conseguir, idiota! Olhe quantas portas, nenhuma delas é a saída, é aqui que você morre!

- me deixa sair! - Eu gritava insistentemente, mas não tinha nada que fizesse a voz para de dizer não. – não nos machuque, por favor!

Hahahahahahahahahahahahahahahaha

- a gente nem leu o livro, por que fazem isso?!

Acha mesmo que somos espíritos, otário?

Só então que me caiu a ficha, há uns meses atrás, crianças haviam sido encontradas mortas próximo a essa casa com sinais de espancamento e algumas simplesmente desapareceram esse horário. A minha única ideia foi correr o mais rápido que eu pude e me enfiar na primeira sala que desse e me esconder. 

Então eu corri sem saber de quem eu estava fugindo foi quando eu entrei em uma das salas daquele corredor e dentro eu não vi nada, fiquei no canto, mas nesse instante eu percebi que aquela pessoa havia entrado na sala, foi quando eu corri tocando as paredes e senti uma outra maçaneta, pensei ser uma sala escondida e foi lá que eu entrei – se eu pudesse, teria pedido pela morte naquele momento, mas eu só queria me esconder.

Entrei no que eu achava ser outra sala, mas era uma espécie de armário ou talvez uma solitária onde colocavam os loucos antes...e a voz me disse: você vai ficar aí, porque foi rebelde e fugiu do papai... então eu senti que algo estava empurrando a porta, talvez uma cadeira estivesse lá prendendo-a. Eu comecei a gritar enquanto eu sentia o ar a minha volta acabar, parecia que aquela sala ia se fechar e me esmagar a qualquer momento, eu sentia que ia morrer e que eu nunca mais ia sair dali, enquanto eu batia na porta, só ouvia os risos do maníaco atrás dela.

Eu vou cuidar dos seus amigos intrometidos e já volto, minha criancinha medrosa! Hahahahahaha

- eu quero sair! Eu quero sair!

Senti o ar acabar e parecia que as paredes me tocavam e que elas estavam se fechando. Não saia mais nenhum som da minha garganta e foi quando o vômito saiu de minha boca e eu comecei a tossir como se estivesse engasgado. Tentando gritar por socorro mais um pouco, eu só lembro de apagar e bater a cabeça no chão. Naquele momento, eu só pensava na minha família que estava jantando despreocupada a me esperar. Meus olhos se fecharam – não que isso fizesse diferença na escuridão – e eu não conseguia ouvir a voz de meus colegas, desmaiei e a única coisa que me lembro depois é de gritarem por meu nome e me tirarem de lá para colocarem numa maca. Meus pais sentiram minha falta e chamaram a polícia para procurar por mim e pelos meus amigos. Um vizinho informou à polícia que nos viu próximos à casa e apenas por isso fomos encontrados, senão o pesadelo ia ser bem maior e eu talvez morresse.

Eu era o único que havia sobrevivido. 

Quando eu vi os sacos pretos com os corpos de meus amigos, fiquei em choque e nem minha mãe conseguia mais chamar minha atenção. Desmaiei novamente e fiquei em coma por uma semana, tempo suficiente para enterrarem os meus colegas e mandarem demolir a casa “mal-assombrada”.

Minha mãe ficou me levando ao psicólogo por cinco anos seguidos para tentar parar os pesadelos que eu tinha com aquela noite, eu não conseguia mais tirar aquela voz da minha mente e os gritos dos meus amigos ainda ecoavam em meu quarto quando eu ficava sozinho.

Dois anos após o trágico episódio, três homens foram presos pela morte das duas crianças encontradas perto da casa, mas não se responsabilizaram pela morte dos meus amigos.

Hoje sou casado, tenho 2 filhos que chamei de Thiago e Pedro em homenagem aos meus amigos, tenho claustrofobia e medo de escuro. Até os dias atuais eu ainda sonho com aquilo, que começou com uma brincadeira inocente onde eu tirei uma lição: Fantasmas não machucam, humanos são mais perigosos.