quarta-feira, 27 de julho de 2011

Romance nas Sombras - Capítulo 3 - Aproximação

Autoria: Thalita Lima

co-autoria: Alisson Alves


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Desci deslumbrante para o jantar, todos me olhavam de cima abaixo, alguns se perguntavam como uma mulher nada feminista como eu poderia também ser tão elegante. O meu vestido longo, de cetim azul-celeste parecia reluzir naquela sala aonde os convidados estavam. Eu escolhi para aquela noite um colar de diamantes e safiras que eu ganhara da minha mãe no meu aniversário passado. Eu estava realmente linda, como uma princesa. A princesa da família Santtory.

Quando finalmente terminei de descer todos aqueles degraus, fui recebida pelo tio Francis, que estava com uma expressão de orgulho nos olhos, e quando olhei para o lado, vi a poucos metros de mim que Domminik me fitava com um olhar admirado e, por um instante, vi reluzir em seu rosto, uma expressão de desejo carnal. Logo expulsei esse pensamento da memória. Era o meu jantar, nada podia ousar me tirar a calma.

Valquíria estava igualmente bela, usando um vestido vermelho-sangue e um colar de esmeraldas, que combinavam muito bem com os seus olhos verdes e cintilantes. Sua maquiagem era perfeita, parecia uma boneca de resina, delicada e com a aparência serena, um sorriso monalístico no rosto dava um ar de mistério e fragilidade á minha rival. Não deixei de notar o bom gosto que Domminik tinha.

Peguei uma taça de Champanhe e fui até ela, que estava ao lado de seu noivo, ambos aparentando estar felizes com a festa e com a minha presença.

- Valquiria, como você está bela! – Tentei demonstrar cordialidade com o tom da minha voz, não podia deixar em nenhum momento a minha máscara cair, eu tinha que seguir com uma expressão de que não me importava, embora o coração rangesse e quisesse gritar.

- Obrigada, mas perto de você, qualquer elegância some. Adorei esse colar, parece uma jóia rara. – Valquíria parecia feliz e, por algum motivo, eu não conseguia sentir ódio daquela mulher. Apenas estava ferida por ela estar com o homem que eu amava.

- ah, não seja tão modesta. Então estamos empatadas em questão de beleza. Esta jóia foi um presente que minha mãe me deu de aniversário, tenho muito apego a ele. Espero que estejam com fome, ouvi dizer que o jantar estará divino. Até mais, vou até ali cumprimentar um grupo de amigos do meu pai. Tchau. – Eu não agüentaria ficar ali por muito tempo, embora eu não a odiasse, era como se algo me incomodasse.

- Tudo bem, até mais. Certamente não nos decepcionaremos com o jantar.

Domminick limitou-se a olhar gentilmente para mim. Ele estava lindo naquele smoking. Notei que em sua lapela, uma rosa azul se sobressaia em contraste com a sua roupa formal. Azul sempre foi a minha cor favorita, seria aquilo um sinal? Ou apenas coincidência? Enfim, não nos falamos aquela noite. O jantar foi ótimo, vi bastantes companheiros de anos atrás, que me contaram sobre as façanhas do meu irmão em relação aos negócios do meu pai, falei com muita gente importante e percebi o quanto eu era querida entre os companheiros que deixei para trás. Eu tinha vontade de voltar e me impor naquele império, mas sentia que deveria ficar ali, pois algo estava para acontecer.

Assim, alguns dias se passaram desde o jantar, eu demonstrava uma atitude normal, e tentava observar cautelosamente minha rival, ela se mostrava muito diferente de mim, alegre, gostava de coisas bonitas, era muito prendada e prestativa, o modelo perfeito de uma dona de casa fiel e submissa.

Um dia, enquanto eu olhava o jardim, Valquíria se aproximou de mim e iniciou uma conversa.

- Você gosta das flores? – Valquíria disse colocando-se ao meu lado segurando uma rosa branca.

- Não sou muito de olhar para elas, mas são bonitas.

- Elas aguçam o sentimentalismo das pessoas e por isso os seres humanos a cultivam, para lembrar de seus sentimentos mais profundos com um simples olhar.

- Você entende bastante, estou impressionada.

- Ah, apenas me interesso pelas coisas belas da vida. Por isso odeio violência e jamais tive coragem de tocar numa arma, apesar da insistência dos meus pais para que eu aprendesse a me defender.

- Como é? Você nunca atirou? – Para mim era uma novidade que alguém que pertence à máfia nunca tivesse atirado, por isso realmente fiquei espantada.

- Você parece bem surpresa, mas o fato é que realmente nunca me interessei pela vida de mafiosa. Todo esse submundo me deixa triste, a morte é quase palpável e nunca temos certeza se nossos entes mais queridos voltarão de uma missão. Isso me deixa profundamente irritada.

- Sua família parece ser bem envolvida com a máfia mundial, estou certa?

- Sim, temos muitos contatos e braços em vários locais do mundo, somos bem conhecidos e respeitados, principalmente na Alemanha. As pessoas temem o nome Salvatore, mas não gosto disso.

- Por quê?

- Acho que você deve saber que, não temos muito direito de escolha. Até o homem com quem vou me casar foi escolha de meus pais. O único lugar do mundo onde não temos negócios é na Itália, sua família é muito forte por aqui e meu pai propôs a Francis um casamento entre as famílias para selar uma aliança e estabelecer bons negócios para ambos.

- Isso é verdade, não podemos escolher. Mas, é sempre bom honrar o nome da família. Nascemos para sermos pilares e é importante que cada pilar contribua para que a casa toda não desmorone. Submissão aqui é a palavra chave.

. Para ser sincera, aquilo me aliviou, pois pude pensar que ela e Domminik não se amavam e que aquele poderia ser apenas mais um casamento por conveniência, o que era muito comum em nosso meio.

- Admiro você, Carllota. Sempre tão forte e decidida. Isso é bom, mas também pode ser ruim. É só não deixar que as decisões torne-se teimosia.

- Obrigada! E belas palavras as suas, tomarei cuidado. Vou procurar algo para fazer, essa monotonia está me matando. Até mais.

- Até.

A partir desse dia, ela sempre vinha me procurar, talvez se sentisse solitária, já que Juliette não parecia lhe dar atenção, e seu noivo não ficava muito em casa, pois vivia viajando. Ele logo assumiria os negócios da família, já que o patriarca estava com idade avançada, sentia-se cansado e sofreu um grande abalo com a morte de meu pai. Eu sentia a falta de Domminik, embora não nos falássemos muito quando ele estava em casa

Por outro lado me sentia um pouco culpada, por não desejar o bem de Valquíria e por continuar apaixonada por seu noivo. Julliete não mentiu ao dizer que minha rival era uma boa pessoa. Eu sabia quando as pessoas estavam sendo falsas comigo e ela demonstrava muito esforço para tentar se tornar minha amiga de verdade. Ás vezes achava que eu tinha razão, afinal eu o conheci bem antes e podia garantir que o amava verdadeiramente, Porém, ainda não sabia dos verdadeiros sentimentos de Valquíria, mas sabia que ela nutria uma afeição considerável por ele, já que na maioria de nossas conversas ela o citava dizendo o quanto ele era um bom homem, que era bonito e que muito lembrava seu pai. Eu não havia conhecido o pai de Valquíria, por isso não podia dizer se Domminik era ou não parecido com ele, mas para mim, Domminik era muito parecido com meu pai, tanto na aparência física, quanto na personalidade, talvez essa seja uma das razões pelas quais o escolhi.

Era nítido nos olhos verdes de minha rival que ela também o amava e eu fiquei um pouco desconfortável com a ideia de fazer amizade com ela, mas tínhamos que nos dar bem, pelo bem da família.

Desde que cheguei aquela casa, minha, minha vida se tornou monótona. O lugar era gigante, mas não havia muito a ser feito e aquilo estava me deixando mais entediada do que de costume. Passava a maioria do tempo no meu quarto, lendo algum livro da biblioteca enorme que tínhamos em casa. Em um desses dias de tédio absoluto, Julliete resolve interromper meus pensamentos e bate á minha porta.

- Carlotta querida, posso entrar?

- é claro, a casa é sua.

- Preciso conversar seriamente com você, não pude deixar de notar algumas coisas neste tempo em que você está aqui. É preciso esclarecer as coisas para que você não me entenda mal.

- Nossa! O que pode ser tão sério?

- Sei dos seus sentimentos por Domminik...

- Julliete eu já disse que...

- Por favor, deixe-me falar. Já disse para não subestimar minha inteligência, Carlotta. Eu a conheço desde criança e percebo como você olha para Valquíria e para meu filho, é muito claro em seus olhos que você está sofrendo com isso. O que quero deixar bem claro é que não gosto de Valquíria. Apesar de ela ser uma boa pessoa, eu a acho fraca e incapaz de me suceder nesta família.

Enquanto ela falava, percebi que um novo fio de esperança brilhava em meu coração, algo que eu já tinha perdido. Ali vi que Julliete realmente não era como as outras mulheres da família. Ela era como eu, forte e segura de si. Julliete então continuou:

- Não sei como você consegue aceitar essa situação, seus sentimentos são tão notáveis e sua dor também, todas as vezes que você tenta evitá-lo e quando o vê fazendo carinhos em Valquíria...

- Valquíria não tem culpa de amá-lo também. É até bom que ela o ame. A vontade de Don é absoluta na família. Só me resta obedecer e seguir em frente. Eu vou conseguir esquecê-lo, nem que isso leve minha vida toda.

- Sinceramente, acho que me enganei em relação á você. Achei que você fosse uma mulher de atitude, mas vi que é você tão fraca quanto Valquíria. Talvez seja mais.

Juliette se levantou com um semblante pesado, aparentando mau-humor e, sem falar nada, apenas abriu a porta e saiu pisando duro.

Fiquei pensando sozinha em suas palavras que reacenderam minhas esperanças, mas o que eu poderia fazer? Nunca fui muito feminina não sei se saberia seduzi-lo, o que me ensinaram foi a manusear armas e não conquistar homens! Pensava se o que ela disse poderia mesmo ser verdade, sempre pensei que ele me amava, mas como uma amiga, como uma irmã, poderia estar errada? Fiquei com aquele turbilhão de pensamentos perturbadores, mas mesmo assim acabei por adormecer.

No meio da noite, acordei e tive a impressão de que alguém havia estado em meu quarto e tocado meus lábios, de leve senti o cheiro do perfume dele, mas como ele não estava na casa, concluí que tudo não passou de um sonho ou mesmo fruto de minha imaginação.

sábado, 23 de julho de 2011

Romance Nas Sombras - Capítulo 2 - Bem-vinda ao nosso lar!

Autoria: Thalita Lima
Co-autoria: Alisson Alves

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- Ele já está indo, não vai se despedir, Carllota? – Tio Francis me disse enquanto Domminik entrava no quarto e eu o olhava friamente pela janela, sem esboçar reação alguma.

- Despedidas não são necessárias. – Respondi rispidamente ao meu tio. A verdade era que eu não queria que Domminik fosse embora, queria que ficasse comigo para sempre, mas tinha de aceitar sua ida. Acatar ordens dos superiores era uma de nossas obrigações e eu, certamente faria isso sem pestanejar.

Domminik era meu primo, um homem charmoso e sedutor. Cabelo loiro, olhos claros e um sorriso lindo, coisa que tio Francis dizia que seria muito útil em negociações. Eu nunca fui muito de sorrir, minha personalidade mais frívola não permitia que eu risse de coisas fúteis.

Passamos nossa infância e também a adolescência juntos, ou seja, tivemos quase o mesmo treinamento, mas ele sempre fora melhor em tudo, por isso tinha o apelido de Hawkeye, olhos de águia, que nunca erravam o alvo. Fizemos muitas missões e nossa cumplicidade era notável, éramos uma dupla infalível. No entanto, um dia tivemos de nos separar. Ao completar 20 anos ele fora mandado ao exterior, o pai queria que ele administrasse alguns de seus negócios e fizesse alianças, achando que isso o prepararia melhor para ser seu futuro sucessor. Eu certamente sentiria sua falta, mas pelo meu orgulho não demonstraria. Sempre tentei esconder ao máximo meus verdadeiros sentimentos, ninguém poderia saber que eu o amava, o admirava e almejava estar a sua altura, ser tão boa quanto ele, para poder estar sempre ao seu lado. Durante sua ausência treinei mais e mais, para talvez um dia ter meu esforço reconhecido e ser notada por ele como uma mulher implacável.

Desde o dia de sua partida, nós nunca mais nos vimos ou falamos ao longo desses 5 anos. Ele veio em minha direção com os braços estendidos oferecendo-me seu abraço quente, por alguma razão, ele não parecia estar surpreso com a minha presença. Não esbocei reação alguma, apenas aceitei seu abraço.

- Rose! Há quanto tempo que não vejo a minha querida prima!

- Creio que cinco anos. Foi tão rápido que nem percebi passar.

- Vejo que a personalidade continua a mesma. Mas, sua aparência está ótima. Você nunca foi feia, mas agora está bem mais elegante

- hmm...

- Lamento pelo seu pai. Grande homem!

- É, mas você sabe que supero qualquer coisa. Temos que tocar os negócios da família agora. O que tem feito?

- Ah, meu pai já está bem velho e estou fazendo quase tudo por ele. O velho não quer sair do trono, mas tenho que me preparar, sabe.

- Sei sim, são muitos negócios mesmo e...

Então uma jovem e linda moça apareceu abraçando-o por trás carinhosamente.

- ah, desculpe minha indelicadeza, esta é Valquíria, minha noiva. Eu a conheci há 3 anos na Alemanha. Ela é linda, não é?

Naquele instante, senti uma pontada no meu coração, como se um daqueles tiros que acertaram meu pai me viesse em cheio. Cheguei até a achar que minha expressão houvesse mudado, mas, graças ao treinamento duro que tive, consegui segurar a máscara, mesmo eu estando totalmente destruída por dentro.

- Nossa, ela é mesmo bonita, Domminick... que sorte você tem! – Eu falei isso, mas meu pensamento era: “como ele ousou colocar outra em meu lugar? Ela parecia tão frágil e sem-graça e eu, sem sombra de dúvidas, era muito mais bonita que ela. Como ele pôde?”

Valquíria era realmente muito bonita. Os olhos muito verdes, cabelos loiros, parecia ser bem delicada e gentil. Ela então estendeu a mão para mim e disse:

- Então você é a famosa Carllota Santtory! Muito prazer em conhecê-la, sou Valquíria Salvattory, espero que sejamos amigas. – O sorriso dela parecia ser sincero. Será que aquela mulher, minha rival, queria mesmo ser minha amiga?

- Ela ainda fala com leve sotaque, mas já entende tudo que a gente diz sem nenhuma dificuldade. Estou contente em vir morar novamente em meu país e trouxe Valquíria para morar conosco, isso não é ótimo? – Domminick disse isso de forma tão entusiasmada que eu até me impressionei. Não podia acreditar no que eu estava ouvindo... Ele ali sorrindo e meu mundo caindo num poço que parecia não ter fundo.

- Ah, é claro, vamos ser amigas. – Mais uma vez sorri. Era um sorriso falso, mas bem convincente.

Isso não podia ser verdade, talvez tudo não passasse de um sonho ruim, do qual eu logo acordaria, mas era tudo real, aquela mulher fraca e sem - graça seria a próxima matriarca de nosso clã.

Nesse momento a mãe de Domminik veio até nós. Juliette certamente era uma mulher admirável, linda e forte, sempre disse que eu seria sua sucessora e que seria melhor que ela algum dia, me tratava como a uma filha.

- Rose, Minha querida! Há quanto tempo! – Juliette abriu um sorriso sincero e me deu um longo abraço.

- Juliette, como você está bela! Está cada vez mais jovem, quero o nome do esteticista, hein! – Sorrimos gostosamente e ficamos nos elogiando e perguntando coisas uma a outra por uns cinco minutos. Juliette tinha esse poder de me fazer esquecer quem estava á minha volta. Então notei que Valquíria se sentiu um pouco constrangida com nossa intimidade. Talvez tenha se sentido esquecida e diminuída na família. Pensando assim, eu quase sorri.

Juliette, sagaz, como sempre, interrompe meus pensamentos malévolos e me tira do transe de cinco segundos:

- E então Carllota, vamos para os seus aposentos? Aposto que deve estar cansada da viagem, você vai amar a suíte que preparamos para você.

Enquanto íamos ao meu quarto, cumprimentei Valquíria com um falso sorriso em meu rosto e fui guiada pela matriarca, em silêncio absoluto, pensava em como minha vida seria dali em diante, como seria ver o homem que amo nos braços de outra.

Mais uma vez, Juliette interrompe meus pensamentos:

- Chegamos querida. Arrume-se, faremos um jantar comemorativo hoje pela sua chegada. Várias pessoas importantes estarão aqui mais tarde. E, não se preocupe com Valquíria, ela é uma boa pessoa. Sempre torci por você, mas nem tudo é como queremos, Carlotta.

- Juliette... Não estou entendendo o que quer dizer e...

- Não subestime minha inteligência, querida. Sabe do que eu estou falando. De qualquer forma, conversaremos sobre isso mais tarde.

Já sozinha no quarto, pensei em fugir, em gritar, sentia ódio, inveja, ciúmes, havia uma grande mistura de sentimentos dentro de mim, não chorei, mas sentia medo de cometer uma loucura. Sentei na beirada da minha cama e fiquei pensando no que fazer dali por diante. Muitos pensamentos me atormentavam e após um tempo de angústia, resolvi me acalmar, já que esta era minha personalidade habitual. Comecei a pensar que nem tudo estava perdido. Eles ainda não eram casados! Ainda dá tempo de eu resolver essa situação da forma que meu pai me ensinou a resolver meus problemas...

Os pensamentos malignos começaram a brotar em minha mente, tentei rapidamente expulsá-los. É verdade que eu era uma assassina, mas tudo que tinha feito até aquele dia foi pelo bem da família. Levantar a mão contra outro membro era considerado imperdoável, mesmo para mim um membro de grande estima com o Don, querendo ou não ela já era uma de nós. Decidi me arrumar para o jantar de logo mais e apenas observar os fatos. Eu não sabia que seria tão instigante o desenrolar dessa história...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ROMANCE NAS SOMBRAS


Autoria: Thalita Lima
Co-autoria: Alisson Alves



PRÓLOGO



Adoro a Suíça. Essa paisagem á minha janela faz com que eu me encante ainda mais e me lembre dos meus tempos de ativa na Máfia Italiana. Foram ótimos tempos, apesar de toda a periculosidade que essa vida nos oferece. Algo que aprendi nesse meio-século de existência, é que se pode ser feliz ou infeliz em qualquer lugar ou ambiente. Depende apenas de como mantemos nossos amigos e de como matamos nossos inimigos.

Sou Carlotta Santtory, codinome Bloody Rose, ou pelo menos costumava ser chamada assim em meus tempos de atividade, fui criada em uma família de mafiosos e mesmo sendo mulher nunca deixei de participar dos negócios de meu pai e irmãos. Hoje já não possuo a vitalidade antiga, mas desde muito cedo aprendi a segurar uma arma e usá-la se fosse necessário, os valores da família me foram passados pelas matriarcas anteriores, no entanto, eu não desejava ser como minha mãe, que mesmo sendo uma mulher forte, nunca ousou sujar as mãos, com o que ela chamava de “trabalho dos homens”. Por isso, talvez tenha me espelhado mais em meu pai, um mafioso temido e conhecido por sua implacabilidade, enquanto minha mãe preocupava-se com minha segurança, meu pai sentia orgulho a cada inimigo nosso que encontrava seu fim por minhas mãos.

Minha narrativa se inicia há mais ou menos 25 anos atrás, quando sofri uma das maiores perdas de minha vida. Todo mafioso sabe que sua existência pode ser breve, mas para um homem como meu pai, me parecia que a morte não existia, somos ensinados a esconder o sofrimento, já que para dar fim em vidas é necessária extrema frieza, por isso em seu enterro não derramei uma lágrima sequer, apesar de tudo tinha orgulho de saber que ele havia morrido para proteger a família, como qualquer um de nós pretende morrer, frente a frente com o inimigo. Ele levou um tiro no peito no lugar de seu irmão, o atual Don. A hierarquia em nossa família se divide da seguinte forma: o filho primogênito, se homem, será o sucessor nos negócios e representará a família principal, já o seguinte filho e os demais, representariam a família secundária, tendo o dever de respeitar e proteger os membros da família principal. Meu pai era o segundo filho, mas nunca amaldiçoou seu destino por isso, pelo contrário, sempre amou seu irmão, a ponto de dar a vida por ele, e assim o fez. Em sua sepultura havia a inscrição: Aqui jaz um homem que amou, honrou e acima de tudo protegeu a família, John Santtory.

Sendo assim, Joseph, meu irmão mais velho, assumiria seu posto e seria o novo patriarca da família, eu como irmã mais nova e mulher não poderia almejar isto, mas ele era um homem de confiança e o braço direito de meu pai, sei que faria um bom trabalho em prol da família. O único problema era que Joseph era contra minha participação direta na máfia, e logo após a morte de meu pai tentou restringir minhas ações, decidindo que eu mudaria de residência e passaria a morar na casa principal, afastando-me assim de meus companheiros habituais que me davam total apoio. Minha mãe apesar de sentir-se solitária sem a presença de sua única filha, concordou por entender que isso seria melhor pra mim e por ser sempre submissa. Apesar de não estar muito feliz com essa idéia, me conformei, já que a vontade do líder era sempre absoluta. Em poucos meses mudei para a casa principal que ficava em outra região, esta era luxuosíssima, mas eu sempre fui acostumada a ter tudo, então aquilo já não me deslumbrava tanto.

Meu tio me recebeu de braços abertos, mas ainda parecia muito abatido com a morte de meu pai. Tio Don sempre foi muito bondoso comigo, umas das características dele era mimar as meninas da família e ser bem duro com os meninos, já que estes seriam os herdeiros e chefes no futuro. O treinamento dos homens da família era intenso e lhes era instruído como regra máxima defender a vida do chefe á todo custo.

No momento em que entrei na casa, tentei absorver todos os detalhes dela, eu sabia que aquele seria meu novo lar, então tinha que conhecer. Observando tudo com cautela eu o avisto, como uma miragem no deserto, meu coração parecia não acreditar e saltava de uma forma irregular. Eu queria vê-lo há tanto tempo e lá estava ele, encostado em uma coluna... Então eu me recompus da surpresa e pude ver que era de verdade, quem estava ali era ele: Domminik...





sábado, 9 de julho de 2011

AMOR DE UM HOMEM MORTO (I) - PARTI


Quando acordei no hospital, minha esposa estava com uma das mãos em minha testa suada, mas eu não conseguia falar nada, por mais que eu tentasse, só conseguia ouvir uns sussurros de mim mesmo, não conseguindo me entender.

Luzia me olhou meio triste e meio sorridente e pôs uma das mãos levemente em minha boca como um sinal de que eu não devia tentar falar nada, apenas ficar lá olhando ela. Mas eu queria muito abraçar aquela mulher, tudo o que nós vivemos juntos foi espetacular, os melhores anos de minha vida de 40 anos – irônico morrer aos 40 anos... Sem filhos e com uma vida toda para viver...

- Meu amor, estou com você! – Luzia disse com expressão reconfortante.

Eu ouvia o som da voz dela junto com os pis das máquinas ligadas ao meu corpo e sentia um leve desconforto nos pulsos e nas minhas articulações dos braços, eram as agulhas penetradas em minhas veias e eu sempre tive medo delas, mas parece que foram responsáveis por me manterem vivo por um pouco mais de tempo.

- O doutor disse que você sofreu uma parada cardiorrespiratória e você só se salvou por eu ter sido rápida, mas tem outro problema, meu bem...

Ela começou a chorar e foi se sentar na cadeira ao lado com ambas as mãos no rosto enquanto eu estava ali, deitado, impotente e imóvel. Deus, como eu queria abraçá-la, dizer que estava tudo bem comigo e chamá-la para passear na praça em que nos conhecemos há 15 anos atrás! Mas, ela tentava me consolar e me proteger, eu me sentia um estúpido.

- você não tem muito tempo de vida – Luzia finalmente disse chorosa – pois está com uma doença que eu não sei o nome e também porque você não se cuidou a tempo, meu amor!

Luzia recomeçou o choro que tinha engolido para poder colocar aquela estaca no meu peito, não sei que expressão eu tive, mas fiquei parado, olhando enquanto ela soltava detalhes do que sabia sobre a minha doença – quase nada, pois ela nunca fora boa em explicar coisas.

Depois de receber essa estaca em meu peito já dolorido, senti uma vertigem e tudo se apagou, e lá vou eu novamente parar na UTI do hospital, pelo menos foi isso que eu fiquei sabendo, depois que eu morri.

Eu não contei, mas nunca mais sai do hospital e minha memória ficou muito fraca depois que eu entrei lá, não conseguia mais sorrir, parecia um boneco bobão enquanto todos estavam tentando salvar minha vida, eu estava lá imóvel e sem nenhuma expressão de agradecimento nem de compaixão com eles. Que raio de doença era essa que eu tinha? Nem eu sei o nome agora, realmente não sei do que morri, mas até o final desta narrativa, talvez eu descubra o que me fez bater-as-botas e vir parar nesse mundo interessante que é o mundo dos mortos. Acredite, não é nada daquilo que te falaram a vida toda.

AMOR DE UM HOMEM MORTO - Prólogo

- Estúpido! – gritou Luzia enquanto eu tentava acalmá-la depois que um baita rato passou por cima dos pés dela e fugiu e eu ri...mas você não sabe como é engraçado ver a Luzia gritando pela mãe dela quando está assustada, então não me julgue mal.


- Desculpe, amor! Eu fui mau, sim, muito mau, garoto mau que sou – fiz uma cena de choro que eu sei que ela não resiste, e cai aos prantos no chão – óh meu deus! Como posso ser tão cruel com minha querida esposinha!

- muito cruel, cruel mesmo, merece a forca! – ela disse isso já caindo aos risos e me levantando do chão – por causa dessa crueldade, vai cozinhar hoje e tem que me fazer feliz!

- Sim senhora, general, vossa senhoria será a mais feliz do mundo! – bati continência.

- eu já sou a mulher mais feliz do mundo, com você!

- idem. – eu só sabia dizer isso depois de algo bonito que ela me dizia, era força do hábito, mas na verdade, eu queria abraçá-la e transar a noite inteira como dois amantes escondidos em qualquer motelzinho de estrada por aí.

Jantamos um espaguete que eu aprendi a fazer com a minha avó, ou melhor dizendo, que eu tentei aprender com ela, isto porque nunca saia tão bom quanto parecia, desta vez joguei sal demais no molho e ela me fez uma cara de sarcasmo como quem dissesse que cozinhava melhor que eu, tá, ela cozinhava melhor, mas não era motivo para aquilo...ferre-se, eu estava feliz com ela ali na minha frente, sorrindo e me contando como fora seu dia no trabalho e o que ia fazer amanhã, eu realmente eu a amava, ou melhor, eu amo ainda...o amor não acaba depois da morte, eu acho.

Deitamos na cama como sempre fazíamos há dez anos e eu me senti um pouco cansado demais, apesar de não ter feito tanto esforço com meu trabalho de...hã...contador de histórias em uma escola infantil, coisa que eu adorava fazer, até hoje eu ainda adoro histórias, é muito bom para exercitar a mentalidade.

Vocês não devem estar entendendo nada, não é?

Pois bem, eu estou morto.

Não é como Memórias Póstumas de Brás Cubas onde um escritor contou a história de um homem cuja vida foi um total fracasso. A minha história é bem contrária a dele. A minha é de alguém que venceu desafios e encontrou um amor... áh, o amor! Foi o que me tornou mais feliz. Luzia foi – e ainda é – o meu motivo de maior felicidade, algo que não é fácil de encontrar no mundo em que vivemos hoje, mas eu encontrei!

Continuando, deitamos e eu me sentia cansado. Olhei para Luzia de uma forma que nunca tinha olhado, todos os nossos momentos felizes e tristes passaram pela minha memória, principalmente o fato de não termos conseguido gerar filhos biológicos, eu tinha um pequeno problema com o número de espermatozóides, mas isso é um mero detalhe de minha vida. Eu queria um neném parecido com ela em personalidade e beleza, porque eu não era bonito.

Luzia é linda com aqueles cabelos arruivados caindo sobre os ombros, o nariz perfeito, os olhos esverdeados com um tom raríssimo de se encontrar, o sorriso perfeito como se cada centímetro tivesse sido esculpido pelas mãos dos mais belos anjos do céu – apesar de eu ser ateu – e o corpo, bom, é um detalhe que você, leitor, vai ficar sem saber, pois eu não compartilho aquela visão celeste com ninguém, eu realmente me sentia no céu quando estava amando ela ali, naquela cama que nos acompanhou por dez bons anos de nossas vidas. Pensei também em como poderíamos ter sido infelizes separados e no fato de que ali eu estava totalmente satisfeito. Vocês não sabem, mas essas coisas todas se passam em nossa mente em milésimos de segundos e ficamos parados com cara de bobos...

- O que foi amor? – Luzia percebeu que eu tivera pensando.

- nada, só estava pensando no quanto somos felizes

- Somos mesmo! Você não esperava por isso, né?

- eu não... você esperava?

- de jeito nenhum, se não fosse você, eu seria hoje uma solteirona deprimida

- com esse seu rosto lindo, jamais você ficaria solteira, eu é que sou o sortudo eu... bem...- comecei a gaguejar não sabia bem o porquê, mas senti necessidade de dizer a ela o quando eu a amava – eu...te amo tanto...- senti meu rosto corar.

Ela virou-se para mim e apertou minha mão

- hum, para você dizer que me ama, assim do nada eu acho que você quer alguma coisa

- hoje não, eu só queria mesmo dizer isso, senti necessidade

- credo, você fala como se fosse morrer! Mas, eu te amo também, muito, muitíssimo, obrigado por ter me feito quem sou agora, te devo muito.

- hum, não vamos entrar em discussão para ver quem deve mais, ok?

Ela sorriu argumentando o quando eu a tinha feito feliz e tentando me convencer que ela me devia mais. Conversamos por um bom tempo, foi bom, até eu me sentir tonto e de repente a tudo se apagou.

- Amor, o que foi?

Foi tudo o que eu ouvi.

Droga, agora vem a parte triste da coisa.