domingo, 4 de julho de 2010

O INCÊNDIO

Autor: Alisson Alves
Gênero: Drama

Estava chovendo.

Eu sempre fui muito medrosa a ponto de chorar para meu irmão (aquele chato de galocha) não me deixar sozinha em casa quando nossos pais viajaram. Mas, nesse dia ele teve que sair com os amigos para fazer um trabalho da escola. Eu tenho muito medo de trovões e estava debruçada sobre a minha cama, embaixo do meu edredom cor-de-rosa e com o travesseiro em minha cabeça, tentando tapar os meus ouvidos para eu não ouvir aquele barulho irritante e que me dava um medo inimaginável.

Meu nome é Cléia, tenho 15 anos e nessa época eu tinha apenas 10, sou branca, olhos cor-de-mel e meu cabelo é ruivo, coisa que meus familiares nunca entenderam bem, por minha mãe ser loura e meu pai ser moreno. Moro na cidade de Curitiba, no Paraná, onde costuma ser muito frio, o que sempre me irritou nessa cidade.

Tentando tapar os ouvidos para não ouvir o som dos trovões, eu comecei a cochilar mas, sou acordada do meu breve sono, pelo som do telefone: trim, trim... isso me deu mais medo, pois era um cenário horrível e eu tinha que descer até a sala para atender o telefone. 

Não fui.

Trim, trim...trim, trim...Trim,trim...

Aquilo estava me incomodando mais que o barulho forte dos trovões. Então decidi atender, vai que era alguém importante? Procurei o telefone enquanto o toque me guiava para onde ele estava. Consegui encontrar embaixo da almofada verde do sofá. Atendi. 

- alô?

- Filha! Como está?

- M...mãe?

- o que foi? Cadê seu irmão, ele deveria estar com você. Ele não a deixou sozinha, deixou?

- N...não, ele está no banho – eu tinha que mentir, pois fiz um pacto com meu irmão no caso de ele precisar me deixar sozinha. Nossa mãe havia proibido-o de me deixar em casa sem companhia, então resolvi ajudá-lo.

- Hum, você não está mentindo, está?

- não, mãe!

- tá bom, acredito em você. Como vão as coisas? Já almoçou? Foi pra escola? Fez o dever de casa... – ela continuou com muitas perguntas, as quais eu ia respondendo com monosílabas (sim, hum, já, ok, ta) – olha, filha, avisa seu irmão que tivemos um contratempo e vamos precisar ficar por mais uma semana, vamos mandar dinheiro amanhã, então diga para ele sacar, tudo bem?

- sim, mamãe, eu falo pra ele.

- e mais uma coisa, cuidado, minha filha.  Não mexa no fogão sozinha, tudo bem?

- tudo bem, ele faz a comida.

 - tenho que desligar filhinha, até mais, ok? Eu te amo. Beijos.

- Beijos, mamãe, eu também a amo.

Desliguei o telefone e joguei em qualquer canto da sala. Percebi que a chuva havia passado, então resolvi ir ver TV. Estava na hora do meu desenho predileto começar.

Liguei a TV e comecei a ver o desenho, mas fiquei entediada e com fome, foi quando eu resolvi ir até a cozinha ver se tinha algo para comer.  Mas, não encontrei nada que pudesse ser comido gelado, então, fui tentar fazer pipoca. Eu sei que minha mãe tinha dito pra eu não mexer no fogão sozinha, mas eu já tinha dez anos, o que podia ocorrer de tão grave, eu sabia mexer no fogão, não podia acontecer nada de mais, aliás, se ocorresse minha mãe nem saberia, já que ela ia ficar mais uma semana fora.

O fogão ficava perto da pia, que era muito bem limpa com álcool e outros produtos, pois minha mãe era muito cuidadosa com a higiene, eu peguei uma colher no escorredor de louças, e, sem querer derrubei uma garrafa que tinha lá do lado. Não me dei ao trabalho de ver o que era, pois não era importante mesmo.   

Coloquei a panela no fogo e pus o milho junto com a margarina, que respingou e eu deixei um pouco que estava na colher cair no chão, e o sal, bom era assim que minha mãe fazia pipoca, então não tinha como dar errado.  Quando começou a fazer barulho, eu deixei a panela lá, até o barulho passar, mas por um instante eu me descuidei e deixei a pipoca queimar, ficou um cheiro horrível e tive que pegar um pano de prato para abrir a panela, abri e um milho não estourado quente pulou em meu dedo, eu me queimei e deixei a panela cair no chão joguei o pano para a frente para ver como tinha ficado a minha mão e só vi o pano queimar na minha frente. Fiquei com medo e joguei aquela água que tinha na garrafa do lado do escorredor. Foi quando um clarão forte se abriu, e o fogo foi em direção á garrafa na minha mão, que eu rapidamente soltei e gritei.

O fogo começou a se espalhar entre os panos da minha cozinha, que minha mãe colocava para proteger os eletrodomésticos. Eu não sabia o que fazer, então sai gritando da cozinha. As labaredas aumentavam muito e o fogo pegou na cortina da janela que ficada perto da pia. Quando eu corri, escorreguei na margarina que havia caído e bati a cabeça no fogão, enquanto o fogo se espalhava. Tentei me levantar, mas me assustei muito quando vi que a mangueira que levava gás ao fogão estava derretendo então pus toda minha força e corri para a porta da cozinha. Eu ia ligar para o meu irmão, ele tinha que me ajudar, então procurei o telefone desesperadamente, não estava no sofá como eu tinha achado antes, e parecia que havia desaparecido, eu me desesperei e comecei a chorar. 

Boom!

Um barulho estrondoso vinha da cozinha, parecia uma guerra. Cacos de vidro pulavam da porta como se fossem a pipoca da panela que eu tinha tentado fazer antes, e o  fogo começou a entrar na sala, queimando primeiramente a plantinha que ficava nos cantos da porta e foi se espalhando pelos móveis de madeira. O Botijão de gás havia explodido e agora o fogo se espalhava pela sala. Eu fiquei imóvel no canto da sala e me veio a idéia de subir a escada, mas já era tarde e o fogo já a tinha alcançado. A escada era de madeira e havia uma espécie de tapete cobrindo os degraus, o fogo subiu rapidamente e eu percebi que ele estava começando a ficar muito algo, a ponto de derreter o PVC do teto, aí  eu tentei ir até a porta que dava para a parte de fora da casa. Mas estava trancada e eu procurei a chave até lembrar que a tinha levado para meu quarto. As janelas tinham grade, a casa era toda murada e mesmo que eu as abrisse, não tinha como eu chamar ninguém, pois era isolado.

Chorei mais ainda e até tentei fugir dos respingos de plástico que começavam a cair do teto em chamas. Nessa tentativa de fuga, senti o telefone na minha mão e rapidamente tentei ligar para meu irmão. 

- O que foi, Cléia? – ele disse irritado

- ma...no...?

- hã?

- a casa está....

- sim, ta limpo, eu limpei tudo, você não sujou nada, né?

- fogo, mano, ta pegando fogo!

- como? – a voz dele era de desespero.

- fuja, mana!

- eu to trancada! – comecei a chorar no telefone, quando ouvi mais um barulho de coisas caindo, parecia que o teto da cozinha cedera e eu estava com muito medo, a porta da cozinha agora parecia que levava ao inferno, pois cuspia fogo e eu não a reconhecia mais...

- espera um pouco, se esconde, mana, eu vou chamar os bombeiros, apenas se esconda! – ele falava gaguejando, desesperadamente. – olha, não tenta nada, fica longe do fogo e não se machuque. Vou desligar e chamar os bombeiros, agüenta um pouco mais, só mais um pouco, por favor! – ele começou a chorar, eu nunca tinha visto aquilo antes, mas meu irmão me amava e era sensível demais.

- ta, rápido! – eu estava chorando e um dos respingos pegou na minha perna – AI! Eu gritei alto, aquilo era muito quente e eu começava a ver lá em cima parte do telhado acima do forro – tchau. 

Eu me levantei mesmo com a perna machucada e tentei lembrar de coisa que eu ouvia na escola e peguei a almofada do sofá e comecei a bater nas pequenas bolinhas de fogo que caiam, mas a fumaça estava tomando conta da minha garganta. Estava começando a arder e a ficar insuportavelmente quente. Nesse tempo eu desejei o frio da cidade que eu odiava.

Fui ficando tonta e minha vista embaçou. Não tinha mais força para nada, nem para gritar. Parecia uma eternidade, mas só tinham passado vinte minutos desde que o fogo tinha se iniciado na cozinha e três minutos que eu tinha ligado pro meu irmão. Então ouço lá fora uma sirene e batidas no portão da frente. Eles haviam chegado.

Não pensei que seria tão rápido, fiquei tão feliz que uma ponta de esperança surgiu em mim e eu fui até uma das janelas e tentei abrir, só que era muito duro – só meu pai conseguia abrir aquela janela – então não tive opções a não ser bater nela desesperadamente. Ouvia gritos chamando meu nome  e eu tentava gritar, mas meus olhos e minha garganta ardiam tanto que eu não podia fazer isso. Ouvi um estrondo no portão e depois não vi mais nada, apenas cai no chão desmaiada.

- acorde menina! – um homem disse isso gritando para mim

- ela se asfixiou com a fumaça, dê a bomba de oxigênio para ela. – disse o outro

Senti então uma máscara cobrir minha boca e meu nariz e um respingo molhado tocou meu rosto, enquanto eu era levada em uma maca para fora de casa. Meu irmão gritava lá de fora, eu pensei estar sonhando, pois não conseguia abrir os olhos.

- mano – eu falei e um dos bombeiros que me segurava disse

- ela está bem, mas vai precisar ficar internada para desintoxicação.

Senti as mãos do meu irmão sobre a minha testa e ele me beijou chorando.

- vamos levá-la, venha conosco, onde estão seus pais?

- eles saíram e eu estou cuidando dela. – meu irmão disse gaguejando, estava com medo de isso dar problemas para os nossos pais.

- bom, vamos resolver isso depois, menino. Venha conosco, os outros cuidarão do fogo.

Não ouvi mais nada, apenas dormi.

Horas depois, meus pais chegam desesperados ao hospital onde eu fora internada, agora eu já havia acordado e meu irmão estava do meu lado enquanto a enfermeira fazia um curativo na queimadura em minha perna. 

- Minha filha! – minha mãe disse correndo até mim enquanto meu pai falava algumas coisas para meu irmão, que simplesmente chorava e pedia perdão por ter me deixado sozinha.

Fui abraçada e beijada várias vezes pelos meus pais e meu irmão até que a enfermeira ficasse irritada e os impedisse de fazer isso, alegando que eu tinha que descansar. 

Sai do hospital no outro dia. Nós fomos para um hotel até arrumarmos uma nova casa para morar. O fogo tomou conta daquela outra e destruiu muitos móveis, somente um pouco da parte de cima se salvou. Agora nós rimos dessa história e fazemos piadas disso, apesar de não ter sido nada engraçado. Somos felizes, mas ainda olho a queimadura da minha perna e lembro-me daquele dia.

 Pipoca? 

Só se for de microondas.

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